O problema não é a tendência — é a leitura rasa
“Tendência” vira sinônimo de modismo quando a marca tenta copiar um resultado (um look pronto) sem entender o porquê daquilo estar acontecendo. A leitura rasa faz você gastar energia em referências bonitas, mas sem tradução prática: produto não fecha, mix fica incoerente e a comunicação vira ruído.
A boa notícia: dá para interpretar tendências com consistência usando um método simples, repetível e adaptável ao seu posicionamento.
1) Separe “sinais” de “decisões”
Antes de decidir cores, tecidos ou shapes, você precisa reconhecer o que está aparecendo como sinal no mercado.
Sinais comuns de tendência:
- Mudanças no comportamento (rotina, trabalho, lazer, consumo)
- Estética recorrente em diferentes lugares (rua, creators, marcas variadas)
- Materiais/tecnologias ganhando espaço
- Novas necessidades (conforto, versatilidade, performance, praticidade)
- Linguagem visual se repetindo (silhueta, detalhes, acabamentos, volumes)
Decisão, por outro lado, é quando você define: “para a minha marca, isso vira X produto, com Y material, no preço Z”.
Se você ainda não consegue dizer “como isso vira produto”, você está na fase de sinal — e tudo bem.
2) Use o filtro do DNA da marca
Nem toda tendência é para você. Um filtro rápido evita retrabalho e reduz risco.
Filtro em 5 perguntas:
- Combina com o DNA? (estilo, atitude, modelagem, linguagem)
- Cabe no público? (ocasião de uso, faixa de preço, preferências)
- É executável? (fornecedor, tempo, custo, complexidade)
- Tem coerência com o mix? (linha atual + linha nova conversam?)
- Tem potencial de venda? (margem, repetição, fácil de explicar)
Se a tendência “só fica bonita na referência”, ela não passa no filtro.
3) Encontre o “porquê” por trás da estética
Quando você entende o motivo, você não copia o look — você traduz a direção.
Exemplo de raciocínio (modelo):
- Sinal: busca por conforto + mobilidade
- Motivo: rotina híbrida, necessidade de peças versáteis
- Tradução: tecidos com elastano, shapes relaxados, acabamento fácil
- Produto: calça com cintura confortável, camisa ampla, conjunto coordenado
- Comunicação: “peças que acompanham seu dia”
O segredo é: motivo → tradução → produto.
4) Valide com consistência (e não com ansiedade)
Validação não precisa ser complexa. O objetivo é reduzir “achismo”.
Formas simples de validar:
- Olhar recorrência do sinal (aparece em mais de um contexto?)
- Comparar com comportamento real do seu público (comentários, dúvidas, preferências)
- Rodar testes internos: 1 look piloto + 1 produto piloto + 1 conteúdo piloto
- Checar execução: fornecedor, lead time, custo, grade, encaixe no calendário
Validação é sobre coerência, não sobre “certeza absoluta”.
5) Transforme em um “kit de decisão” (para sua coleção)
Agora você cria um kit objetivo que vira briefing de produto e comunicação.
Kit de decisão (o mínimo que funciona):
- 1 tema/direção (frase curta)
- 5–7 palavras-chave (sensação + função)
- 1 paleta (principais + apoio)
- 2–3 materiais/estruturas
- 2–3 shapes/itens-chave
- 1 referência de styling (como usar)
- 1 regra de mix (ex.: base neutra + pontos de cor / lisos + texturas)
Isso alinha criação, produto e marketing na mesma página.


